O DESAFIO DA CONTINUIDADE E A SUA NECESSIDADE
Sedrick de Carvalho
DESDE 2017 QUE PUBLICO nas redes sociais sugestões de leitura de obras angolanas, primeiro no perfil pessoal do Facebook e, actualmente, por intermédio das redes sociais da editora Elivulu, que coordeno. A recomendação é acompanhada com referência ao ano de publicação do livro e, logicamente, o nome da autora ou autor. Este exercício permitiu-me perceber a importância da biobibliografia de quem publica uma obra.
Tomás Lima Coelho, amigo da editora desde a primeira hora, atento ao trabalho desenvolvido e, em especial, às sugestões de leitura, ofereceu-nos a segunda edição do seu livro Autores e Escritores de Angola – 1642-2018, e assim passamos a ter as nossas sugestões de leitura mais completas: título da obra, ano de publicação, autoria e o seu local e ano de nascimento. Esta obra é um trabalho monumental organizado ao longo de mais de dez anos, com imenso sacrifício e consequências a nível pessoal, como a falta de tempo para dedicar-se a outros projectos literários e até à família. O próprio admitiu-o. E acrescenta que, como precisa de dedicar-se a outras coisas e escritos, era urgente encontrar um sucessor para o fantástico trabalho, mas hercúleo, que é esta obra.
Pensei imenso antes de aceitar esta responsabilidade, mas adianto o que fez-me aceitá-la. No momento que precisamos de sair de cena, surge-nos a questão sobre quem dará continuidade ao nosso trabalho. John Maxwell fala sobre o legado no livro As 21 irrefutáveis leis da liderança, apontando que o legado ocorre quando líderes estão em condições de se afastarem sem receio de colocar em risco os projectos, isto porque conseguiram garantir a existência de outros líderes em posição de dar continuidade ao que dedicamos a nossa vida para construir. É com esta preocupação que fui abordado por Tomás Lima Coelho, e foi com este dilema com que me debati: honrar o legado. Aceitei o desafio, e fi-lo pela necessidade de que o seu magnífico trabalho tenha continuidade, para que não fique desactualizado e ultrapassado passado o tempo. Entretanto, ao mesmo tempo, temia pela tamanha responsabilidade que assumia. A fase de transmissão de projectos/trabalhos para outrem é crucial, pois pode ocorrer a sua extinção. Sem experiência de trabalho similar, esta missão revelou-se extremamente delicada e difícil.
O processo de recolha e registo exige imensa disponibilidade, além do que julgava à partida. O contacto directo com editoras, escritoras e escritores, livrarias e alfarrabistas a pedir informações sobre determinados livros e suas biografias traduziu-se numa colossal aventura. Não deixei de pensar em desistir diante de tantas dificuldades em obter os dados exactos e, às vezes, até mesmo perante incompreensões quando solicitava pelos mesmos. Mas a importância deste trabalho é superior aos constrangimentos e dificuldades que acarreta. Felizmente, Tomás Lima Coelho continua disponível, pelo que me acompanhou ao longo desta primeira etapa da entrega do bastão, qual estafeta que corre lado a lado na pista com o colega para garantir que agarra firme o objecto e marca com firmeza os primeiros passos do sprint.
Desta corrida resultou num total de 520 novos autores e escritores registados. É este o resultado destes três anos que se incrementam ao trabalho, reunindo agora os autores e escritores angolanos de 1642 a 2022.
PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO
TEMPO DE MATURAÇÃO E ABERTURA À DESCOBERTA
Filipe Zau*
TOMÁS LIMA COELHO NASCEU, a 5 de Outubro de 1952, na cidade portuária de Moçâmedes, nas terras desérticas da welwitschia mirabilis, genuinamente conhecidas por Tchitoto Tchobatua, mais tarde Mossungo-Bitoto e também pela designação histórica de Angra dos Negros. Coincidentemente, nasceu 42 anos após o fim da monarquia e da proclamação da 1.ª República em Portugal.
Por força das constantes transferências de seu pai, funcionário da Fazenda Nacional, adquiriu vivências em alguns actuais municípios angolanos e na cidade de Malanje, onde reconhece que nasceu para a vida. A guerra civil em Angola infortunadamente obrigou-o a ter de se refugiar em Portugal com a família. Vive hoje na margem sul do Tejo, num apartamento decorado com belos quadros pintados por sua esposa, tendo ao seu dispor uma considerável biblioteca pessoal, situada num amplo sótão de prateleiras repletas de bons livros, preocupação reservada apenas aos intelectuais de mão cheia.
Depois de Chão de Kanâmbua (ou o Feitiço de Kangombe), editado em 2010 e após dez anos de persistente trabalho de recolha de informação, Tomás Lima Coelho lança a público, em 2016, Autores e Escritores de Angola (1642-2015), um aturado levantamento bibliográfico correspondente a 373 anos de literatura e trabalhos científicos publicados com a identificação dos seus respectivos autores. Um período que toca os dias de hoje, mas que tem o seu início no tempo dos reinos do Ndongo e de Benguela, já que a “província ultramarina” de Angola só foi assim designada pela primeira vez em 1869, após a unificação administrativa pelo poder colonial destes dois reinos africanos.
Esta nova publicação das editoras Alende/Perfil Criativo, melhorada e actualizada, a primeira do género em todos os PALOP, permitiu a acomodação de mais 732 novos nomes de gente das letras e das ciências de Angola, que assim se juntam aos 1.780 já registados da edição anterior. Agora o total de autores e escritores angolanos corresponde, até ao momento, a 2.512 e a algumas centenas mais de livros publicados, nos anos de 2016, 2017 e 2018.
Este meritório trabalho de recolha, repleto de sentido de alteridade, é, pois, mais que um livro. É uma oferenda aos intelectuais angolanos, que, na sua grande maioria, têm, tal como o Tomás Lima Coelho, o umbigo enterrado em Angola. As gerações mais idosas e as gerações mais jovens de angolanos ficar-lhe-ão, com toda a certeza, eternamente gratos.
É certo que a dinâmica cultural de saída a público de mais publicações faz com que este trabalho ganhe um carácter permanente, como forma de se manter sempre actualizada a informação bibliográfica. Talvez por isso, Tomás Lima Coelho tenha ultimamente solicitado o pedido de passagem de testemunho…
Mas como “pedir arrêgo” desta sua árdua e relevante missão de compromisso para consigo próprio, se já está feito o destroncar e o arar da terra para a sementeira e se todos já colhemos os frutos da divulgação deste relevante levantamento do acervo bibliográfico angolano, totalmente desconhecido até há um par de anos a esta parte? Para quem está ainda longe de ser septuagenário, o tempo é ainda de maturação e abertura à descoberta. Não de precoce repouso para olhar memórias pelo retrovisor das vivências. Parabéns, meu caro amigo, pelo bom trabalho que vem fazendo e que, acredito, irá continuar a fazer, sem tréguas, no futuro.
Luanda, Janeiro de 2019
* Músico, escritor, docente universitário, membro do Conselho Científico da Academia Angolana de Letras (AAL) e Ministro da Cultura e Turismo de Angola.
PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO
Adelino Torres*
ESTE VERDADEIRO GUIA de Autores e Escritores de Angola é, sem dúvida, pela sua evidente utilidade, uma obra que se revelará indispensável para os poetas e escritores angolanos.
O esforço abrangente de recolha do que se tem produzido desde os tempos mais longínquos que é possível alcançar em matéria de publicações na literatura angolana, foi um critério acertado. Não porque o valor das obras não seja porventura desigual, como sempre acontece aliás, mas porque a procura de exaustividade, critério por vezes menos exigente, é certo, tem, pelo menos nesta fase, a vantagem de dar ao tempo o recuo para a leitura criticamente mais amadurecida de uma segunda oportunidade. Creio que Tomás Lima Coelho agiu sabiamente ao proceder desta maneira tolerante na delicada fase inicial da recolha, evitando deste modo possíveis erros subjectivos ou inevitáveis “arbitrariedades”…
Do ponto de vista metodológico, muito foi feito para facilitar a consulta da obra dando uma informação biográfica e bibliográfica mínima sobre cada autor e a respectiva região de Angola donde é oriundo. A surpreen dente quantidade de autores selecionados, presumo que não prevista no inicio da investigação, não permitiu talvez desenvolver muito mais a apresentação de cada um sem que o “dicionário” excedesse dimensões razoáveis.
Seja como for, este livro é já de consulta indispensável na área da cultura e da literatura nacional, e mesmo que alguns dos nomes possam deixar um rasto efémero na memória a sua presença ajudará todavia a fixar fronteiras e etapas que contribuirão para a construção de uma mundividência que, a longo prazo, irá alicerçar e reforçar aquilo que se pode chamar a “cultura angolana”, diversificada e plural, cada vez mais rica no futuro.
Um “dicionário” como este fazia falta a Angola como ponto de orientação auxiliar da literatura angolana. Daí o seu caracter insubstituível, porque, como disse o grande poeta Leopold Sedar Senghor referindo-se genericamente à francofonia, se “a cultura permanece o problema essencial da francofonia”1, também poderíamos dizer que a lusofonia (uma vez que os autores se exprimem em geral na língua portuguesa sem qualquer conotação ideológica, evidentemente) é uma cultura antes de ser uma política2, pelo jogo das “forças vitais” (Senghor)3, que não são característica exclusiva deste ou daquele sector da população, mas que se propagam, como que por osmose, à nação inteira, seja qual for a etnia ou a cor da pele.
Este grandioso rendez-vous humano do dar e receber que constrói a pouco e pouco a “civilização universal”, como lhe chama Senghor, formará um humanismo com a dimensão do cosmos, sem que isso signifique que as línguas e culturas regionais não tenham também o seu lugar nesse “diálogo plural”.
Mas é neste diálogo que deve ser impulsionada a modernidade cientifica e cultural sem as quais não haverá progresso em Angola e em África, que se irá alicerçar o mundo do porvir e o destino da humanidade africana, com o predomínio da “razão intuitiva” onde os homens poderão inventar, como disse um poeta, a “cor das vogais”…
Senghor, falando dessa evolução cultural que progride à escala do globo, acrescenta que hoje o símbolo maior “para a humanidade, é que cada continente, raça ou nação, cada homem ou mulher, tome enfim consciência desta revolução cultural que, sobretudo, enterre o desprezo cultural e participe com a sua contribuição activa”4.
Se, de facto, como disse um pensador, a poesia é uma arte maior porque integral, Tomás Lima Coelho presta, com esta recolha, um serviço inestimável à cultura angolana dos nossos dias.
Luanda, Janeiro de 2019
* Professor Catedrático Jubilado do ISEG (UTL) e Professor Catedrático da Universidade Lusófona de Lisboa. É membro da Academia Internacional de Cultura Portuguesa. Foi colaborador activo da Sociedade Cultural de Angola durante a década de 50 do século passado. É autor de treze livros e diversos artigos sobre socio-economia e economia africana, publicados em Portugal e França. No campo literário tem publicados oito livros de poesia.
- Leopold Sedar Senghor, Ce que je crois, Paris, Grasset, 1988:160.
- Ibd.: 146.
- A que se refere também Placide Tempels em 1949, num livro justamente famoso intitulado a Filosofia Bantu.
- Senghor, Libertés 5 – Le dialogue des cultures, Paris, Seuil, 1993: 210. Ver também: Jean Godefroy Bidima, Théorie critique et modernité négro-africaine, Paris, Publications de la Sorbonne, 1993.
ALOCUÇÃO NA APRESENTAÇÃO DA 1ª EDIÇÃO EM 2016
Miguel Kiassekoka*
Em primeiro lugar, os meus sinceros agradecimentos ao Tomás Lima Coelho, autor de Autores e Escritores de Angola (1642-2015), obra de valor inestimável para a História e a cultura do espaço geográfico chamado Angola. Os meus agradecimentos estendem-se ao editor, aos outros apresentadores e a todos os presentes.
É uma honra e um privilégio participar neste acto simbólico: o lançamento de um livro destinado a perpetuar, na sua pluralidade e diversidade, a dimensão universal da cultura Angolana.
Propor-me falar dos 1.780 autores e escritores, incluindo o próprio autor, seria uma missão impossível. Assim, irei abordar esta obra de uma outra forma, pelo que peço a vossa benevolência.
Há anos, através de um escritor angolano, Tazuary Nkeita (José Soares Caetano), tive conhecimento do trabalho que o amigo Tomás Lima Coelho publicava e actualizava mensalmente na internet. Fiquei impressionado pela paciência, pela qualidade e volume do trabalho.
Transmiti ao Tomás a importância de publicar em papel a informação já recolhida na altura. A ideia foi aceite e o Tomás empenhou-se em concretizá-la. Mais uma vez, dou os meus parabéns ao autor por esta obra-prima, a primeira do género, que congrega todos os angolanos, independentemente da raça, credo politico ou religioso ou área de nascimento.
O livro tem a particularidade de apresentar a Angolanidade, espalhada no mundo inteiro, desde 1642 aos nossos dias. Tomás Lima Coelho tem o mérito de não fechar essa Angolanidade nos marcos de um incompreensível chauvinismo registado ultimamente, ligado a um certo preconceito de “genuinidade” que tanto mal já provocou no continente berço, a nossa África.
O Tomás conseguiu manter o valor e a dimensão universal da Angolanidade nesta sua obra, o que a torna um manual indispensável para a formação das futuras gerações, construtoras da consolidação da nossa Nação.
Neste universo globalizado, não há como sermos “genuínos” sem entrar em conflito com nós próprios e com o resto do mundo. Todos somos “mestiços culturais”, tendo conservado o que é originalmente nosso, enriquecido com o que vamos absovendo de outras culturas. Falo o português e outros idiomas, mas preservo o meu Kikongo; muitas vezes, expresso a minha emoção nessa minha língua materna, deixando confusos os que não a entendem.
A linguagem de Tomás é clara, ninguém corre o risco de se perder no grande manancial que representa esta sua obra; lê-se com muita facilidade e com uma certa ânsia de encontrar autores e escritores quer conhecidos, quer desconhecidos. É um livro que nos leva a ter dificuldade em iniciar a leitura logo na primeira página, pois corre-se à procura de nomes familiares.
Esta valiosa obra tem algumas imperfeições que edições posteriores vão, com certeza, limar. Encontrei a maioria dos autores e escritores de Angola, como o João Mantantu Dundulu, mais conhecido, no seio dos cristãos Baptistas, por “João Nlemvo”, que foi o primeiro a traduzir a Bíblia do grego e hebraico para Kikongo, e escreveu um dicionário Kikongo – Inglês. O doutor Américo Boavida, médico e herói da Luta de Libertação Nacional e patrono dos Trabalhadores da Saúde de Angola que celebram o seu dia a 25 de Setembro, em sua homenagem. Cito apenas estes dois, para não provocar o ciúme de outros autores e escritores que conheço e que também me conhecem!
No meu conceito de Angolano e de Angolanidade, há um ilustre esquecido e a ausência do seu nome nesta antologia é notória, para os amantes da literatura angolana: Castro Soromenho. Embora nascido em Moçambique, teve uma plena vivência angolana, particularmente nas Lundas, que soube narrar de uma forma ímpar na sua trilogia: a Chaga, Viragem e Terra Morta, obras publicadas e vendidas pela UEA nos anos 80, republicadas pelo Ministério da Cultura de Angola para o segundo Festival Nacional da Cultura, e publicitadas pela TPA Internacional. Solicitei, pois, ao meu amigo Tomás, a correcção deste lapso na próxima edição, porque Castro Soromenho, exceptuando o seu país de nascimento, reúne todos os requisitos e sinais de Angolanidade para figurar nesta obra.
O livro é lançado no mês em que celebramos, também, a vida e a obra do primeiro presidente de Angola independente, Dr. António Agostinho Neto, homem de cultura e, do meu ponto de vista, um dos melhores poetas da Angolanidade. Neto usou o belo para consciencializar os seus contemporâneos sobre a situação colonial, tornando a poesia uma poderosa arma para a libertação dos Povos Africanos. É uma justa homenagem a este ilustre filho de Angola.
Pelo seu valor pedagógico, devemos empenhar-nos em que este livro seja incluído no sistema de ensino, para incentivar a investigação da nossa cultura e dos seus principais actores.
Devemos, ainda, lançar o desafio da tradução desta obra noutras línguas nacionais, para a sua larga divulgação no seio da população angolana.
Autores e Escritores de Angola representa um trabalho gigantesco, um decisivo e fundamental passo, dado pelo Tomás Lima Coelho em prol do conhecimento e preservação da literatura angolana. Esperamos, agora, que as instituições cumpram o papel que lhes compete, dando, efectivamente, o apoio necessário para a sua continuidade.
Muito obrigado pela atenção.
Lisboa, aos 22 de Novembro de 2016
* Médico e editor. Nasceu em 1954, na Maquela do Zombo e faleceu em 2020, em Lisboa.
NOTA DO AUTOR: A menção feita ao escritor Castro Soromenho, pelo Dr. Miguel Kiassekoka, merece uma explicação sobre os critérios com que foi pensado e elaborado este trabalho. Esses critérios são dois: ter nascido em Angola (ou ter adquirido a nacionalidade angolana) e ter publicado pelo menos um livro. O escritor acima referido não cabe nestes critérios (nasceu em Moçambique e faleceu no Brasil antes de existir uma Angola independente), apesar da reconhecida angolanidade das suas obras, bem como as de tantos outros, dos quais citamos apenas quatro nomes a título de exemplo: Alfredo Troni, José Redinha, Albano Neves e Sousa ou João Maria Vilanova. Sensível a este apelo, acrescentamos, nesta nova edição, um capítulo final assinalando os nomes e obras de alguns autores “com Angola dentro”.
A(S) LITERATURA(S) DE ANGOLA DESDE OS SEUS PRIMÓRDIOS
Tomás Lima Coelho
Embora a cidade de Mbanza Congo, capital do reino do Congo, não estivesse ainda inserida nos limites fronteiriços da Angola que conhecemos hoje, incluímos ainda assim nesta resenha dois autores oriundos daquela localidade. A primeira obra conhecida de um natural daquele reino é o livro Gentio de Angola Suficientemente Instruido Nos Mysterios de Nossa Sancta Fé, da autoria de ANTÓNIO DO COUTO, um padre jesuíta nascido em Mbanza Congo em inícios do século XVII, uma adaptação do trabalho Gentilis Angollae fidei mys-teriis... instructus do jesuíta italiano Francisco Pacconio. Esta obra foi publicada em Lisboa no ano de 1642.
Ainda naquele século o frade capuchinho MANOEL REBOREDO, também natural de Mbanza Congo, filho do nobre português Thomaz Reboredo e de Eva, uma irmã do rei do Congo D. Álvaro V, foi co-autor do Dicionário Kikongo-Latim-Espanhol publicado em 1651.
Em 1712 foi publicado em Roma, pelo tipógrafo responsável pelo trabalho, o livro Idea Consillarii da autoria de MANOEL CORRÊA DE AZEVEDO, padre jesuíta natural de Luanda, doutorado em Évora, que ocupava o cargo de Conselheiro Geral dos Jesuítas em Roma quando faleceu em 1708.
Mas, tirando o caso destes intelectuais educados nas escolas religiosas, a população nativa era olhada e usada apenas como força de trabalho e só muito poucos, os filhos de uma pequena elite aculturada e europeizada, conseguiam sobressair. Foi o caso de JOSÉ DA SILVA MAIA FERREIRA, homem culto e viajado, filho de um casal de luandenses da alta burguesia angolana que, após os estudos concluídos no Brasil e em Portugal, publicou em 1849 aquela que viria a ser a primeira obra literária de um filho do país: Espontaneidades da minha alma, um livro de poesia com dedicatória às senhoras da sua terra, mas onde a forma, o estilo e o vocabulário pouco têm de África, de Angola. Alguns anos antes, em 1834, JOAQUIM ANTÓNIO DE CARVALHO E MENEZES tinha publicado em Lisboa o trabalho Memoria geografica, e politica das possessões portuguezas n’ Affrica ocidental, que diz respeito aos reinos de Angola, Benguela, e suas dependências. Este luandense foi o responsável pela primeira tentativa para instalar uma máquina de imprensa em Luanda, em 1842, mas, julga-se que por sabotagem dos interesses estabelecidos em Lisboa, o navio onde vinha a máquina naufragou na baía de Moçâmedes.
Só após um longo hiato de dezasseis anos, em 1865, um outro angolano, MANUEL ALVES DE CASTRO FRANCINA publicaria, em co-autoria com o médico brasileiro Saturnino de Souza e Oliveira, aquele que viria a ser o primeiro compêndio para o estudo de uma língua angolense: Elementos grammaticaes da lingua Mbundu. Maior período temporal se passaria, vinte anos, para que JOÃO MANTANTU DUNDULU publicasse em 1885 um Dicionário Kikongo-Inglês, sob orientação dos missionários americanos da Sociedade Missionária Baptista (BMS). Seis anos passados, em 1891, um outro filho do país, JOAQUIM DIAS CORDEIRO DA MATTA, viu publicada a sua primeira obra, um livro de poesia intitulado Delírios. O livro foi lançado numa época de forte efervescência popular à volta do ultimato britânico sobre a questão do Barotze e do mapa cor-de-rosa, um tempo em que jornalistas e outros literatos polemizavam acesamente nos jornais, revistas e almanaques da colónia, onde já se expunham claramente ideias autonomistas e independentistas. Nomes como José de Fontes Pereira, Arantes Braga, Augusto Bastos, Sant’Anna Palma, Pedro da Paixão Franco, Urbano de Castro, Silvério Ferreira ou Francisco Castelbranco, todos eles filhos da terra, foram muito importantes para a discussão dessas ideias, amplamente difundidas pela imprensa da época num debate que se prolongaria ainda para o século XX.
Mas voltemos aos livros. No ano seguinte, em 1892, um outro angolense conseguia ver o seu livro publicado, depois de inicialmente o ter feito em folhetins, tanto em periódicos de Portugal como de Angola: trata-se de PEDRO FÉLIX MACHADO, estudante em Portugal onde cursou Direito. O seu livro, intitulado Scenas d’África:? - Romance íntimo, já se destaca por conter um forte cariz regional, já é de Angola e dos seus costumes que se fala, ainda que escrito num estilo algo queirosiano, de cunho europeu portanto.
A seca de produção, contudo, continuava, e só treze anos depois, em 1905, BENTO MÂNTUA, um luandense que viria a distinguir se como Presente do Sport Lisboa e Benfica (1917-1926), publica Novo Altar, em Lisboa, uma obra de forte influência maçónica. Quatro anos mais tarde, em 1909, AUGUSTO THADEU BASTOS, filho de um abastado comerciante da Catumbela, publica Traços gerais sobre a etnografia do Distrito de Benguela. Em 1911, o caricaturista e dramaturgo JULIÃO FELIX MACHADO, irmão mais novo do escritor Pedro Félix Machado, escreve no Brasil a comédia dramática A bandeira.
Um ano depois, em 1912, PEDRO DA PAIXÃO FRANCO publicava em Portugal o seu livro História de uma traição, um libelo acusatório contra antigos companheiros, jornalistas como ele, fruto ainda do rescaldo dos debates na imprensa angolana iniciados em finais do século XIX.
Continuando na senda dos grandes hiatos temporais surge, quinze anos depois, em 1927, a primeira obra de ÓSCAR RIBAS, um livro intitulado Nuvens que passam. Dois anos passados, em 1929, vem a público História de Angola, a primeira abordagem do tema sob o olhar de um natural do país, o luandense ALBERTO DE LEMOS.
Entramos na década de 30, período em que sete autores conseguem publicar: MANUEL INÁCIO DOS SANTOS TORRES, um fervoroso nativista luandense, publica em Portugal Subsídio para a História do Progresso das Colónias Portuguezas; AGNELO DE OLIVEIRA, em parceria com J. Trindade publica, em 1932, Os nossos versos; FRANCISCO CASTELBRANCO, ainda à volta da história, publica, em 1935, História de Angola: desde o descobrimento até à implantação da República (1482-1910) e RALPH DELGADO estreia-se com O amor a 12 graus de latitude sul: cenas da vida de Benguela. No mesmo ano, ANTÓNIO DE ASSIS JÚNIOR estreia-se com a obra O segredo da morta. No ano seguinte, em 1936, publica-se o livro O imposto nas transmissões de EMÍLIO SIMÕES DE ABREU, um trabalho de teor técnico ligado às funções do autor na Fazenda Nacional. Um ano depois, em 1937, GERALDO BESSA VICTOR aparece com A poesia e a política e, mais dois anos passados, em 1939, surge TOMAZ KIM com a obra poética Em cada dia se morre.
A década de 40 abre com bons prenúncios: logo em 1940 MAURÍCIO SOARES, um descendente de colonos madeirenses, publica ... e Ramiro também ficou; ainda neste ano, DOMINGOS JOSÉ FRANQUE, o nome português de Boma-Zanei-N’Vimba, membro da nobreza do antigo Reino do N’Goio, publica em livro Nós, os Cabindas: história, leis e costumes dos povos de N’Goio. Em 1941 vem a público uma outra obra, desta vez de uma mulher que será a primeira angolense a publicar um livro: LÍLIA DA FONSECA com A mulher que amou uma sombra. Em 1943 chega a vez de EDUARDO DE AZEVEDO se estrear com Vidas rasas. Dois anos depois, em 1945, JOÃO DE ALMEIDA E SOUSA “CACHIMBINHA” publica Apontamentos de etnografia por africanos: inquérito aos hábitos e costumes do povo adstrito à administração de Nrikinya, o escultor moçamedense SALVADOR BARATA FEYO publica A escultura de Alcobaça e MARIA DE FIGUEIREDO, também moçamedense, publica Eu também sou Português!. Só no fim deste período, em 1948, três novos títulos surgem: Silêncio, do luandense HUMBERTO DA SYLVAN, O imbondeiro maldito de MÁRIO MILHEIROS, um descendente de colonos madeirenses da Humpata, e do malanjino ALFREDO DIOGO JÚNIOR publica-se o livro Angola: a ocupação holandesa e a restauração: factos determinantes. A primeira incursão de um filho de Angola na Banda Desenhada surge pelo traço de VÍTOR PÉON que publica o álbum Em demanda do Grão-Cataio em 1949.
Já se revela mais pujante a década de 50, onde os assomos de uma elite literária começam a surgir, reflexo inicial ainda tímido do movimento intelectual “Vamos descobrir Angola!”. Logo em 1950 MANUEL JÚLIO DE MENDONÇA TORRES redige “O Distrito de Moçâmedes nas fases da origem e da primeira organização”; o radialista NUNO DE MENEZES publica “Gotas de orvalho” em 1951 e, no mesmo ano, TEODÓSIO CABRAL, em parceria com Abel Pratas e Henrique Galvão, assina “Da vida e da morte dos bichos: subsídios para o estudo da fauna de Angola e notas de caça”, uma obra composta por cinco volumes. Em 1953 MÁRIO PINTO DE ANDRADE colige uma “Antologia temática de poesia africana” e, no ano seguinte, em 1954, cinco autores se revelam: EUGÉNIO FERREIRA, um madeirense a quem viria a ser atribuída a nacionalidade angolana, surge com “Itinerário: estudos e ensaios”, HENRIQUE NOVAIS publica “Contestação. Poemas”, o moçamedense JOAQUIM PEDRO ARROJA JÚNIOR inicia-se com “Flores negras”, MARIA JOANA COUTO, a terceira angolana a surgir nas letras, aparece com “Braseiro ardente” e NORONHA FEIO publica “Iniciação desportiva: conceitos gerais”. Em 1955, EDUARDO ABREU DA SILVA BRAZÃO escreve o poema épico “Os Namibelusos” e LUÍS FILIPE DE OLIVEIRA E CASTRO publica “Mouzinho, a sua vida e a sua morte”. Em 1956 mais cinco autores vêm as suas primeiras obras publicadas: COCHAT OSÓRIO escreve “Calema”, FERNANDO LAIDLEY, o protagonista da primeira travessia de África em automóvel, publica “Missão em África: primeiro “raid” terrestre Luanda-Lourenço Marques-Bissau”, JORGE HENRIQUE DA CRUZ PINTO FURTADO aborda a Justiça em Angola com “Breves notas para a História da Administração da Justiça em Angola”, MÁRIO ANTÓNIO DE OLIVEIRA publica “Poesias” e ROBERTO CORREIA edita “Assim somos todos”. Em 1957, AGOSTINHO NETO, o médico-poeta que viria a ser o primeiro Presidente de uma Angola independente, publica em Coimbra “Quatro poemas de Agostinho Neto”, numa edição de autor; das terras quentes do Namibe CLODOVEU GIL mostra-se com “Temas eternos: poesia”, o médico luandense FERNANDO FIGUEIRA HENRIQUES traz a público o ensaio antropológico “Contribuição para o estudo da fertilidade da mulher indígena no ultramar português”, FERNANDO PEYROTEO, um dos “5 Violinos” do Sporting Clube de Portugal, deixa escritas as suas “Memórias de Peyroteo” e JOSÉ BAPTISTA PINHEIRO DE AZEVEDO, que viria a ser 1° Ministro de Portugal, publica “Trigonometria: navegação estimada e costeira”. Em 1958, ANTERO FRANCISCO DE SEABRA estreia-se com a obra “A luta do Ultramar” e MARIA PERPÉTUA CANDEIAS DA SILVA escreve “A mulher de duas cores: falsos trilhos”. Em 1959 o emérito historiador ILÍDIO DO AMARAL inicia o seu rico percurso histórico-literário com a publicação de “Subsídios para o estudo da evolução da população de Luanda”, JUDITE FERNANDES SANCHES OSÓRIO publica “ Apontamentos de economia doméstica” e CORTE-REAL SANTOS, jornalista do “Diário de Benguela”, publica um “Roteiro Turístico de Benguela”. É ainda nesta década que VOTO NEVES, um conhecido folclorista luandense, edita um “Dicionário Português-Kimbundo/Kimbundo-Português”.
Mas é na década de 60, e a partir daí, que o apelo do movimento intelectual começa a dar os verdadeiros frutos. Aqui fica a lista dos autores e das suas primeiras obras, onde já despontam nomes importantes da luta contra o colonialismo, por paradoxal que isso possa parecer dada a repressão do regime colonial, ou talvez até por isso mesmo, onde a poesia, a arma literária de resistência por excelência, tem a maior preponderância nas publicações:
1960 (6) – ARNALDO SANTOS com “Fuga”; CARLOS ALVES com “O povoamento de Angola”; COSTA ANDRADE com “Terra de acácias rubras”; HENRIQUE ABRANCHES com “Cigarros sujos”; INÁCIO REBELO DE ANDRADE com “Um grito na noite” ; JOSÉ LUANDINO VIEIRA com “A cidade e a infância”.
1961 (10) – ALEXANDRE DÁSKALOS com “Poesias”; ANTÓNIO JACINTO com “Poemas”; ERNESTO LARA FILHO com “Picada de marimbondo”; FERNANDO AMARO MONTEIRO com “Vozes no muro”; HAYDÉE VALL com “Pôr-do-Sol”; HORÁCIO CAIO com “Angola: os dias do desespero”; LOURENÇO MENDES DA CONCEIÇÃO com “Portugueses de direito e portugueses de facto”; MANUEL DOS SANTOS LIMA com “Kissanje”; TOMÁS JORGE com “Areal”; VIRIATO DA CRUZ com “Poemas”.
1962 (4) – ANTÓNIO CARDOSO com “Poemas de circunstância’; EUGÉNIO FERREIRA DA SILVA com “Arco-íris”; GONZAGA LAMBO com “Cancioneiro popular angolano: subsídios”; HENRIQUE GUERRA com “A cubata solitária”.
1963 (4) – ALBERTO DIOGO com “Rumo à industrialização de Angola”; AMÉRICO BOAVIDA com “Angola: cinco séculos de exploração portuguesa”; LUÍS FILIPE OLIVEIRA E CASTRO com “Anticolonialismo e Descolonização”; ÓSCAR JACOB AZANCOT DE MENEZES com “Cultura e beneficiamento do sisal em Angola”.
1964 (5) – ANGERINO DE SOUSA com “O laço vermelho”; MARIA EUGÉNIA LIMA com “Entre a parede e o espelho: poemas”; MARIA JOSÉ ALVES PEREIRA DA SILVA com “Labaredas em prece”; NUNO VALDEZ THOMAZ DOS SANTOS com “O desconhecido Niassa”; REGINA MARIA DE MELO E CRUZ com “O Brasil visto pela cultura francesa do séc. XVIII”.
1965 (4) – AFONSO MILANDO com “Ochandala”; ALBANO DIAS DA COSTA com “O Crioulo da Guiné. Uma abordagem etno-linguística”; ANA DE SOUSA SANTOS com “Subsídio etnográfico do povo da ilha de Luanda de 1960”; ANTÓNIO FARIA com “Introdução ao cinema angolano”.
1966 (5) – ALDA LARA com “Poemas”; JORGE MACEDO com “Tetembu”; EDGAR VALLES com “A fruticultura angolana e o comércio externo”; JOsE MANUEL MENDES com “Enquanto cresce este rio audaz”; MARIA CELESTE PEREIRA ABAKAYE KOUNTA com “Política linguística em Angola”.
1967 (4) – ABEL AUGUSTO BOLOTA com “Benguela, Cidade Mãe de Cidades”; ANTÓNIO ALBERTO NETO com “Contribution à l’étude du mouvement ouvrier dans le processus de la libération nationale”; DAVID MESTRE com “Kir-Nan”; MANUEL RUI com “Poesia sem notícias”.
1968 (1) – ALEXANDRE DO NASCIMENTO com “A experiência Constitucional da Itália moderna”.
1969 (3) – JORGE VALENTIM com “Qui libère l’An-gola?”; MANUELA CERQUEIRA com “Menina do deserto”; ROLA DA SILVA com “A Censura: consequências marginais”.
Depois, já entrados na década de 70 e até à data da independência de Angola, outros nomes irão afirmar-se, muitos deles já perfeitamente engajados e amadurecidos na continuação da luta anticolonialista pela via intelectual. Aqui fica a lista:
1970 (8) – CARLOS DINIS DA GAMA Com “Laboratory studies of comminution in rock blasting”; CARLOS ERVEDOSA com “Arqueologia angolana”; CARLOS MARTINS DE CASTRO ALVES com “Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro: boquejo biográfico do colonizador de Moçâmedes”; ELEUTÉRIO SANCHES com “Tuque-tuque de batuque”; MARIA EDUARDA RIBEIRO com “Fixação do Salário Mínimo e problemas conexos”; PAPÁ SAMBO com “Rir dá saúde”; VICENTE NETTO com “Princípios gerais de Direito”; WANDA RAMOS com “Nas coxas do tempo”.
1971 (6) – ANTÓNIO CORDEIRO DA CUNHA com “Folhas da vida”; HENRIQUE DO NASCIMENTO RODRIGUES com “Regime jurídico das relações coletivas de trabalho”; HONORINDA CERVEIRA com “Kiangala”; JOÃO ABEL com “Bom dia”; JOSÉ MANUEL MARTO com “Asas...”; MANUEL C. AMOR com “Na rota do Quinaxixe”.
1972 (11) – ANDRÉ MASAKI com “Mwana Nsiona”; ANTÓNIO MADEIRA SEGADÃES TAVARES com “Análise Matricial de Estruturas”; CARLOS GOUVEIA com “Utanha Wátua”; CIRO GOURGEL com “Contos soltos”; DOMINGOS VAN-DÚNEM com “Auto de Natal”; EDUARDO BRAZÃO FILHO com “Cidade e sanzala”; FRAGATA DE MORAIS com “Terreur en Verzet”; MARIA DO CARMO MARCELINO com “Obra poética” ; OLGA GONÇALVES com “Movimento”; RUY DUARTE DE CARVALHO com “Chão de oferta”; SAMUEL DE SOUSA com “Poesia”.
1973 (12) – ALEXANDRE PASTOR com “Homens que podem dormir”; ANTÓNIO MANUEL LOPES DIAS com “País inacabado”; ARISTIDES VAN-DÚNEM com “A última narrativa de vovó Kiala”; BENÚDIA com “A bola e a panela de comida”; FERNANDO OLIVEIRA com “A defesa do consumidor”; JACINTO RODRIGUES com “Urbanismo e Revolução”; JOFRE ROCHA com “Tempo de cicio”; LEONOR CORREIA DE MATOS com “Origens do povo Chope segundo a tradição oral”; LYGIA SALEMA com “Desterro de mim”; PEPETELA com “As aventuras de Ngunga”; ROBERTO DE CARVALHO com “Com a força do tempo”; SEVERINO MOREIRA com “Flores no charco”.
1974 (11) – ADRIANO BOTELHO DE VASCONCELOS com Voz da terra; ANTÓNIO AUGUSTO CENTENO com A fronteira; ANTÓNIO CASTRO com Poemas; ANTÓNIO PINTO com Angola rumo à Independência; EMANUEL KUNZIKA com A formação da nação angolana e a luta da libertação; JOÃO JORGE LUCAS com Absolvição impossível; JORGE MONTEIRO DOS SANTOS com Corpus; MANUEL J. A. LEAL GOMES com Determinação de parâmetros físicos de reservatórios; RAUL DAVID com Colonizados e colonizadores; RUI ROMANO com Poesia; UANHENGA XITU com O meu discurso.
1975 (12) – AIRAM ALICE PEREIRA DOS SANTOS com O Tempo e a Memória; ANTÓNIO DUARTE DE ALMEIDA E CARMO com Prevenção de acidentes de trabalho e doenças profissionais na imprensa gráfica; ARLINDO BARBEITOS com Angola Angolê Angolema; CELESTINO SOARES AMARO com O medo; GLÓRIA LEAL GOMES com Reflexos; JORGE ARRIMAR com Ovatyilongo; JORGE CAMPINOS com A ditadura militar: 1926-1933; JOSÉ DE OLIVEIRA ASCENÇÃO com Angola rumo à independência: o governo de transição, documentos e personalidades; LOPO DO NASCIMENTO com Considerações breves acerca de 'O Dilúvio Africano'; MÁRIO DE SOUSA CLINGTON com Angola libre?; ORLANDO CASTRO com Algemas da minha traição; SÃO VICENTE com Cultura e incultura angolana.
Assim, entre 1642 e 1975, ficam registados 167 autores (sendo 21 do sexo feminino) com livro publicado, o que é manifestamente pouco e revela, para além da existência de uma censura apertada, a pouca atenção que se dava ao ensino na então colónia: muito poucos passavam da escolaridade primária e menos ainda conseguiam prolongar os estudos, necessitando para isso de sair do território, um objectivo que só era atingido por um escasso número.
Apenas com os bons ventos da independência a pujança livre e sem amarras dos autores nascidos em Angola se revelou na sua plenitude e, até hoje, são já em grande número os novéis escritores e escritoras com obras publicadas, seja no país natal, seja na diáspora.
Pelo meio, para além dos que escaparam ao crivo da nossa pesquisa, encontrámos muitos autores de reconhecido mérito, homens e mulheres com obra dispersa por jornais, revistas, antologias, almanaques e publicações diversas, sem alguma vez terem visto editado algum livro seu e que, por este motivo, não ficam referenciados neste trabalho. Fica, sim, a nossa homenagem.
Na sequência do que atrás ficou dito segue-se a lista de todos os Autores e Escritores naturais de Angola que conseguimos agregar desde 1642. Alguns faltarão, certamente, poderão existir falhas e imprecisões também, sem dúvida, mas esperamos que estas contingências de pesquisas infrutíferas não firam demasiado o objectivo e o espírito deste trabalho.
JOSÉ DA SILVA MAIA FERREIRA
Nasceu em Luanda a 7 de Junho de 1827 e faleceu no Rio de Janeiro a 18 de Outubro de 1867.
Tinha o mesmo nome do avô, português, e do pai, já nascido em Luanda, comerciante abastado e senhor de uma vasta frota de navios. A mãe, Ângela de Medeiros Matoso Maia, também luandense, descendia em linha directa de duas proeminentes casas senhoriais de Luanda: a dos Matoso de Andrade e a dos Botelho de Vasconcelos.
Publicou em 1849 o volume de poesias, Espontaneidades da minha alma. Às Senhoras Africanas, considerado a primeira obra literária publicada em Angola da autoria de um escritor angolense. Da primeira edição desta obra, a única cópia que sobreviveu foi descoberta numa biblioteca pública de New York na segunda metade do século XX pelo professor da Universidade de Wisconsin, Gerald Moser. Em 2002 foi publicada uma reedição em Portugal pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
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A sua vida errante iniciou-se em 1834, com a queda do regime miguelista em Portugal, quando a família foi obrigada a retirar-se para o Rio de Janeiro em virtude do progenitor, apoiante declarado daquele regime, ter perdido todos os seus lugares e privilégios na administração pública de Angola. Maia Ferreira cumpriu o primeiro ciclo da sua formação escolar no Rio de Janeiro até aos 10 anos. Em 1838, juntamente com o irmão mais velho, António da Silva Maia Ferreira, foi estudar para Lisboa onde permaneceu até 1841, após o que retornou ao Rio de Janeiro. Dali para diante iria dividir a sua trajectória entre o Brasil, Angola e New York.
Regressou a Luanda em 1845 e, com apenas 18 anos, assumiu a função de secretário da Junta de Saúde e a de secretário da Comissão Mista Portuguesa e Britânica em 1846. Logo a seguir, a 18 de Outubro de 1847, retornou ao Rio de Janeiro em negócios. Em Setembro de 1849 ei-lo de novo em Angola, onde foi colocado em Benguela como tesoureiro da alfândega.
Em Abril de 1850 foi investido no cargo de oficial da Secretaria do governo da mesma capitania. O seu último emprego em Benguela foi o de escrivão das descargas da alfândega, donde acabou por ser demitido em 1851 por [...] por irregular comportamento e repreensível conduta [...] Este episódio pesou inquestionavelmente na sua decisão de abalar para a América do Norte em Maio de 1851 por estar relacionado com os acontecimentos em Benguela: a revolta dos comerciantes europeus, deposição do governador, coronel Francisco Tavares de Almeida, e com a exposição dos seus amigos ao ferrete do desprezo público, por causa das convicções progressistas e o pendor anti-lusitano de todos eles. Terão sido recção a New York.
Em 1852 foi admitido no Consulado-Geral como escrivão. A 22 de Abril de 1856, por proposta do cônsul-geral português em New York, foi investido nos cargos de chanceler e vice-cônsul pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros português em 16 de Março de 1858.
Não mais retornaria ao seu chão natal.
Bibliografia do autor:
Espontaneidades da minha alma. Às Senhoras Africanas (1849).
LÍLIA DA FONSECA (MARIA LÍLIA VALENTE DA FONSECA SEVERINO)
Nasceu a 21 de Maio de 1906, na cidade de Benguela, e faleceu a 14 de Agosto de 1991, em Lisboa. Era filha de uma angolense natural de Luanda e de um português republicano e maçon.
Viajou para Portugal ainda criança. Estudou em Coimbra e no Porto, onde investiu na sua formação académica.
Em 1941 publicou A mulher que amou uma sombra, mas foi com Panguila, em 1944, que ganhou notoriedade como escritora, um romance que faz um retrato fiel da sociedade benguelense colonial da época.
Em 1948, com a criação do MNIA (Movimento dos Novos Intelectuais de Angola), que tinha como lema Vamos descobrir Angola!, a escritora trabalhou com outros escritores e poetas da sua época, como Ermelinda Xavier, Maurício de Almeida Gomes, Cochat Osório, Agostinho Neto, António Jacinto, Humberto da Sylvan e Viriato da Cruz, entre outros.
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Porém, foi como autora de literatura infanto-juvenil que Lília da Fonseca especialmente se distinguiu. Publicou vários títulos, conquistou o prémio João de Deus em 1960 e em 1963, e a colecção “Carrocel”, que dirigiu, teve o apoio da Fundação C. Gulbenkian. Fundou ainda o Teatro de Branca Flor, em 1962, de fantoches, com peças e bonecos também de sua autoria.
Para além de escritora, trabalhou como jornalista no início da carreira.
Contribuiu com a sua escrita informativa e com os seus textos poéticos e narrativos no jornal A Província de Angola, onde foi redatora, na altura em que fixou residência em Lisboa.
Apesar de se ter afirmado como escritora, não deixou de colaborar no jornal A Província de Angola, assim como em outros periódicos. Fundou o jornal Magazine da Mulher (1950-56), em Lisboa, que dirigiu, e colaborou em numerosas publicações, como Século Ilustrado, Mundo Português e Seara Nova.
Destacou-se ainda por ter sido a primeira mulher que teve a coragem de concorrer às eleições legislativas para a Assembleia Nacional, em 1957, como candidata pela Oposição Democrática. Em 1969 foi uma das dez mulheres que, na Cooperativa Padaria do Povo, lançaram a Comissão Democrática Eleitoral de Mulheres, que iria fazer parte do Movimento CDE. Lília da Fonseca integrou a Comissão Distrital da CDE de Lisboa (1969).
A partir de 1977, e até ao seu falecimento, integrou o Conselho Nacional do Movimento Democrático de Mulheres.
Bibliografia da autora:
A mulher que amou uma sombra (1941)
Panguila (1944)
Poemas da hora presente (1958)
Filha de branco (1960)
O relógio parado (1961)
O malmequer das cem folhas (1984)
O moinho da Inácia (1987)
Os ladrões das barbas de arame farpado (1989).
Nasceu em Luanda a 7 de Junho de 1827 e faleceu no Rio de Janeiro a 18 de Outubro de 1867.
Tinha o mesmo nome do avô, português, e do pai, já nascido em Luanda, comerciante abastado e senhor de uma vasta frota de navios. A mãe, Ângela de Medeiros Matoso Maia, também luandense, descendia em linha directa de duas proeminentes casas senhoriais de Luanda: a dos Matoso de Andrade e a dos Botelho de Vasconcelos.
Publicou em 1849 o volume de poesias, Espontaneidades da minha alma. Às Senhoras Africanas, considerado a primeira obra literária publicada em Angola da autoria de um escritor angolense. Da primeira edição desta obra, a única cópia que sobreviveu foi descoberta numa biblioteca pública de New York na segunda metade do século XX pelo professor da Universidade de Wisconsin, Gerald Moser. Em 2002 foi publicada uma reedição em Portugal pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
A sua vida errante iniciou-se em 1834, com a queda do regime miguelista em Portugal, quando a família foi obrigada a retirar-se para o Rio de Janeiro em virtude do progenitor, apoiante declarado daquele regime, ter perdido todos os seus lugares e privilégios na administração pública de Angola. Maia Ferreira cumpriu o primeiro ciclo da sua formação escolar no Rio de Janeiro até aos 10 anos. Em 1838, juntamente com o irmão mais velho, António da Silva Maia Ferreira, foi estudar para Lisboa onde permaneceu até 1841, após o que retornou ao Rio de Janeiro. Dali para diante iria dividir a sua trajectória entre o Brasil, Angola e New York.
Regressou a Luanda em 1845 e, com apenas 18 anos, assumiu a função de secretário da Junta de Saúde e a de secretário da Comissão Mista Portuguesa e Britânica em 1846. Logo a seguir, a 18 de Outubro de 1847, retornou ao Rio de Janeiro em negócios. Em Setembro de 1849 ei-lo de novo em Angola, onde foi colocado em Benguela como tesoureiro da alfândega.
Em Abril de 1850 foi investido no cargo de oficial da Secretaria do governo da mesma capitania. O seu último emprego em Benguela foi o de escrivão das descargas da alfândega, donde acabou por ser demitido em 1851 por [...] por irregular comportamento e repreensível conduta [...] Este episódio pesou inquestionavelmente na sua decisão de abalar para a América do Norte em Maio de 1851 por estar relacionado com os acontecimentos em Benguela: a revolta dos comerciantes europeus, deposição do governador, coronel Francisco Tavares de Almeida, e com a exposição dos seus amigos ao ferrete do desprezo público, por causa das convicções progressistas e o pendor anti-lusitano de todos eles. Terão sido recção a New York.
Em 1852 foi admitido no Consulado-Geral como escrivão. A 22 de Abril de 1856, por proposta do cônsul-geral português em New York, foi investido nos cargos de chanceler e vice-cônsul pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros português em 16 de Março de 1858.
Não mais retornaria ao seu chão natal.
Bibliografia do autor:
Espontaneidades da minha alma. Às Senhoras Africanas (1849).