Adelino Torres*
ESTE VERDADEIRO GUIA de Autores e Escritores de Angola é, sem dúvida, pela sua evidente utilidade, uma obra que se revelará indispensável para os poetas e escritores angolanos.
O esforço abrangente de recolha do que se tem produzido desde os tempos mais longínquos que é possível alcançar em matéria de publicações na literatura angolana, foi um critério acertado. Não porque o valor das obras não seja porventura desigual, como sempre acontece aliás, mas porque a procura de exaustividade, critério por vezes menos exigente, é certo, tem, pelo menos nesta fase, a vantagem de dar ao tempo o recuo para a leitura criticamente mais amadurecida de uma segunda oportunidade. Creio que Tomás Lima Coelho agiu sabiamente ao proceder desta maneira tolerante na delicada fase inicial da recolha, evitando deste modo possíveis erros subjectivos ou inevitáveis “arbitrariedades”…
Do ponto de vista metodológico, muito foi feito para facilitar a consulta da obra dando uma informação biográfica e bibliográfica mínima sobre cada autor e a respectiva região de Angola donde é oriundo. A surpreen dente quantidade de autores selecionados, presumo que não prevista no inicio da investigação, não permitiu talvez desenvolver muito mais a apresentação de cada um sem que o “dicionário” excedesse dimensões razoáveis.
Seja como for, este livro é já de consulta indispensável na área da cultura e da literatura nacional, e mesmo que alguns dos nomes possam deixar um rasto efémero na memória a sua presença ajudará todavia a fixar fronteiras e etapas que contribuirão para a construção de uma mundividência que, a longo prazo, irá alicerçar e reforçar aquilo que se pode chamar a “cultura angolana”, diversificada e plural, cada vez mais rica no futuro.
Um “dicionário” como este fazia falta a Angola como ponto de orientação auxiliar da literatura angolana. Daí o seu caracter insubstituível, porque, como disse o grande poeta Leopold Sedar Senghor referindo-se genericamente à francofonia, se “a cultura permanece o problema essencial da francofonia”1, também poderíamos dizer que a lusofonia (uma vez que os autores se exprimem em geral na língua portuguesa sem qualquer conotação ideológica, evidentemente) é uma cultura antes de ser uma política2, pelo jogo das “forças vitais” (Senghor)3, que não são característica exclusiva deste ou daquele sector da população, mas que se propagam, como que por osmose, à nação inteira, seja qual for a etnia ou a cor da pele.
Este grandioso rendez-vous humano do dar e receber que constrói a pouco e pouco a “civilização universal”, como lhe chama Senghor, formará um humanismo com a dimensão do cosmos, sem que isso signifique que as línguas e culturas regionais não tenham também o seu lugar nesse “diálogo plural”.
Mas é neste diálogo que deve ser impulsionada a modernidade cientifica e cultural sem as quais não haverá progresso em Angola e em África, que se irá alicerçar o mundo do porvir e o destino da humanidade africana, com o predomínio da “razão intuitiva” onde os homens poderão inventar, como disse um poeta, a “cor das vogais”…
Senghor, falando dessa evolução cultural que progride à escala do globo, acrescenta que hoje o símbolo maior “para a humanidade, é que cada continente, raça ou nação, cada homem ou mulher, tome enfim consciência desta revolução cultural que, sobretudo, enterre o desprezo cultural e participe com a sua contribuição activa”4.
Se, de facto, como disse um pensador, a poesia é uma arte maior porque integral, Tomás Lima Coelho presta, com esta recolha, um serviço inestimável à cultura angolana dos nossos dias.
Luanda, Janeiro de 2019
* Professor Catedrático Jubilado do ISEG (UTL) e Professor Catedrático da Universidade Lusófona de Lisboa. É membro da Academia Internacional de Cultura Portuguesa. Foi colaborador activo da Sociedade Cultural de Angola durante a década de 50 do século passado. É autor de treze livros e diversos artigos sobre socio-economia e economia africana, publicados em Portugal e França. No campo literário tem publicados oito livros de poesia.
- Leopold Sedar Senghor, Ce que je crois, Paris, Grasset, 1988:160.
- Ibd.: 146.
- A que se refere também Placide Tempels em 1949, num livro justamente famoso intitulado a Filosofia Bantu.
- Senghor, Libertés 5 – Le dialogue des cultures, Paris, Seuil, 1993: 210. Ver também: Jean Godefroy Bidima, Théorie critique et modernité négro-africaine, Paris, Publications de la Sorbonne, 1993.