TEMPO DE MATURAÇÃO E ABERTURA À DESCOBERTA
Filipe Zau*
TOMÁS LIMA COELHO NASCEU, a 5 de Outubro de 1952, na cidade portuária de Moçâmedes, nas terras desérticas da welwitschia mirabilis, genuinamente conhecidas por Tchitoto Tchobatua, mais tarde Mossungo-Bitoto e também pela designação histórica de Angra dos Negros. Coincidentemente, nasceu 42 anos após o fim da monarquia e da proclamação da 1.ª República em Portugal.
Por força das constantes transferências de seu pai, funcionário da Fazenda Nacional, adquiriu vivências em alguns actuais municípios angolanos e na cidade de Malanje, onde reconhece que nasceu para a vida. A guerra civil em Angola infortunadamente obrigou-o a ter de se refugiar em Portugal com a família. Vive hoje na margem sul do Tejo, num apartamento decorado com belos quadros pintados por sua esposa, tendo ao seu dispor uma considerável biblioteca pessoal, situada num amplo sótão de prateleiras repletas de bons livros, preocupação reservada apenas aos intelectuais de mão cheia.
Depois de Chão de Kanâmbua (ou o Feitiço de Kangombe), editado em 2010 e após dez anos de persistente trabalho de recolha de informação, Tomás Lima Coelho lança a público, em 2016, Autores e Escritores de Angola (1642-2015), um aturado levantamento bibliográfico correspondente a 373 anos de literatura e trabalhos científicos publicados com a identificação dos seus respectivos autores. Um período que toca os dias de hoje, mas que tem o seu início no tempo dos reinos do Ndongo e de Benguela, já que a “província ultramarina” de Angola só foi assim designada pela primeira vez em 1869, após a unificação administrativa pelo poder colonial destes dois reinos africanos.
Esta nova publicação das editoras Alende/Perfil Criativo, melhorada e actualizada, a primeira do género em todos os PALOP, permitiu a acomodação de mais 732 novos nomes de gente das letras e das ciências de Angola, que assim se juntam aos 1.780 já registados da edição anterior. Agora o total de autores e escritores angolanos corresponde, até ao momento, a 2.512 e a algumas centenas mais de livros publicados, nos anos de 2016, 2017 e 2018.
Este meritório trabalho de recolha, repleto de sentido de alteridade, é, pois, mais que um livro. É uma oferenda aos intelectuais angolanos, que, na sua grande maioria, têm, tal como o Tomás Lima Coelho, o umbigo enterrado em Angola. As gerações mais idosas e as gerações mais jovens de angolanos ficar-lhe-ão, com toda a certeza, eternamente gratos.
É certo que a dinâmica cultural de saída a público de mais publicações faz com que este trabalho ganhe um carácter permanente, como forma de se manter sempre actualizada a informação bibliográfica. Talvez por isso, Tomás Lima Coelho tenha ultimamente solicitado o pedido de passagem de testemunho…
Mas como “pedir arrêgo” desta sua árdua e relevante missão de compromisso para consigo próprio, se já está feito o destroncar e o arar da terra para a sementeira e se todos já colhemos os frutos da divulgação deste relevante levantamento do acervo bibliográfico angolano, totalmente desconhecido até há um par de anos a esta parte? Para quem está ainda longe de ser septuagenário, o tempo é ainda de maturação e abertura à descoberta. Não de precoce repouso para olhar memórias pelo retrovisor das vivências. Parabéns, meu caro amigo, pelo bom trabalho que vem fazendo e que, acredito, irá continuar a fazer, sem tréguas, no futuro.
Luanda, Janeiro de 2019
* Músico, escritor, docente universitário, membro do Conselho Científico da Academia Angolana de Letras (AAL) e Ministro da Cultura e Turismo de Angola.